Dia 1 – Bateria – Toca do Bandido
2 de julho de 2009
6 horas da manhã. Despertador toca. Era pra ter ido surfar, mas troquei essa possibilidade de astral e saúde por mais horas de sono. Pego o carro e vou buscar o Diego Laje que iria ajudar muito como assistente de produção no dia.
As 9:30 chegamos no estúdio. Decido começar o dia light, gravando uma música calma. Canção para os Amigos. Até pra sobrar mais energia pro resto, e esquentar os tendões, juntas e músculos com calma.
A ideia é trabalhar com muita ambiência. Montamos a bateria no meio da sala pra aproveitar melhor o reverb natural.
Ao redor largamos tudo que trouxemos. Um monte de peças, caixas, pratos e mais pratos. Por sinal foi uma ótima oportunidade de testar os pratos que trouxe da Turquia, que comprei direto na fábrica (no maior favelãããão). Lindos.
Chegam ao estúdio os engenheiros de som Jorge Guerreiro e em seguida Alexandre Griva. Assistidos pelo interno da Toca Renato Godoy, há uma rápida convenção de como captar o que e com o quê.
Vale frisar como é engraçado ver o quanto um estúdio pode ser a cachaça de engenheiros de som, que ficaram reparando nas coisas mais engraçadas…mas enfim.
O processo de cabeamento, posicionamento e escolha de microfones, pre amplificadores e compressores leva tempo pra caralho. Tudo só ficou pronto pra iniciar as 14 hs e pouco. Levamos também alguns dos nosso próprios microfones (Royer 121, NS-10, …).
Parece besteira, e pouca gente sabe da importância dos prés e compressores, mas são totalmente vitais. E uma paredinha de Neve´s não fez mal a ninguém.
Enquanto eles faziam isso, afinamos os tambores no tom da música, testamos caixa e pratos, e dei umas passadas pra entrar na onda, pois é uma música de arranjo flutuante, meio improvisada.
Aconteceu em todas as músicas. A base (o que se escuta pra tocar junto, instrumentos) estava meio fora do tempo com o click (marcação de tempo), e isso não me ajudou muito. A culpa, toda minha, que fiz as bases dias antes. São os males de uma banda “solitária”.
Tudo correu bem. Consegui o som de bumbo bem aberto que eu queria. Meio timpano, meio Fiona Apple. A bateria respirou bastante, com muita dinâmica e elegância. Bingo!
Fome geral. Ânimos começam a cair. Eu levei frutas e chá verde…..metade adorou, a outra queria pizza ou alguma merda gordurosa do tipo.
Griva (Velho) vai na função do almoço, já que ia ter que sair pra resolver outras coisas e era o mais faminto.
Próxima. Pra aproveitar um pouco das regulagens, fomos pra Dama de Honra. Menos light que Canção, mas ainda assim com sua dose de delicadeza. Troca de pratos e caixas, ajustes de prés…e lá vamos nós de novo. A música fluiu bem. Foi “matada” rapidamente. Também tem o arranjo bem solto, deixando margem a improvisos.
O clima era muito bom, e faz diferença trabalhar entre amigos e pessoas do bem. E as vezes me esqueço, mas como engenheiro de som é uma raça pra ser prolíxa. Sempre que perguntava o que era melhor entre duas coisas, o Jorge me explicava a diferença entre elas. Porra, eu quero uma opinião, não uma explicação.
Chega o Griva com o almoço. Todo mundo para pra comer junto, dando graças a santa rúcula que ele fez tanta questão de comprar. Depois do almoço SEMPRE rola um bode. Clássico. Preguiça do caralho, e vontade de dormir. Pensando zero nisso, partimos pro rock. Úi.
Gravamos a intro de O Grande Crime, que era pra ter um som grande e pesado (Faith no More de referência óbvia). Trocamos a batera toda. Tambores grandes, e poucos pratos. (por sinal, que eu me lembre, só usamos crashs de 20″ pra cima. Mucho Macho)
Griva reclama das mudanças. Meus micro segundos de pedal duplo não agradaram. Foda-se. Deixei assim mesmo. Sou metaleiro e nerd, e viva a fritação.
Próxima. Como Alexandre teria que partir antes de acabar (até pq era pra terminar as 18:00 e terminamos as 12:56) ele escolheu fazer a sua queridinha.
A Curva.
Puta que pariu. Lá vem. É como sair de uma sauna e alguém jogar água do congelador em você. Mudamos o set de novo. Muitos pratos MESMO, e afinação totalmente diferente. A primeira música do dia que exigia uma pegada fortíssima durante muito tempo.
Ela já estava mapeada na cabeça. Arranjos todos montados, sem um pingo no i que não tivesse sido previamente calculado (alguns lembrados e cobrados pelo Diego). O desafio seria tocar ela com a pegada mais espancação possível sem deixar de fazer os arranjos cheios de sutilezas e detalhes mais técnicos (leia-se firúlas). Deixar tudo nítido e com pressão.
Ok. O fone fica voando da cabeça no meio da música. Varios takes que começaram bem arruinados por causa disso. Usa-se a técnica genial do Mute Math. Fita adesiva pra enrolar toscamente o fone na cabeça. Funcionou, mas deu uma enforcada básica.
Em poucos takes depois ela rolou, quase que inteira em um. Depois é só catar o caco de outro. Usamos a caixa que o Griva quis, e nem pensei sobre isso. Era tanta a certeza dele que passei a bola. Mesmo ele dizendo que seria ótimo testar uma pinguim, que ficou no estudio dele. A Ludwig não tem muito erro.
Após alguns bons anos, é natural da música mudar um pouquinho. Ele não gostou da segurada na dinâmica do refrão e reclamou. Básico. Por isso eu amo o meu Velho. E ficou me pentelhando durante todos os meus takes pra eu “tocar essa porra direito”. Ele já estava cansado. Normal. E depois dessa música eu fiquei aos frangalhos. Devo estar velho mesmo. A mão começou a doer e inchar.
Show must go on. Tanto tempo pra tirar som, seria um crime não extrair o máximo do dia. (ou não)
Velho dá linha.
Muda-se o set COMPLETAMENTE. Bumbo vintage 24″x16″ (ao invés do 20″x18″ que estava direto) e caixa e contratempo mais toscos possíveis. E só. Gasta-se um tempo pra acertar o som, e pronto.
A música é No Fundo do Mar (Não, não é Homem ao Mar). Matei rapidinho. Pouca batera nela. No final, troca-se a caixa pra parte final e tchum. Mais um take e acabou.
Escutei de dentro da técnica (onde monitora-se a gravação) e soou muito foda. Bem diferente do convencional.
Acho que foi a última vez do dia em que ainda achei alguma coisa. Depois disso era tanto cansaço que eu comecei a achar que talvez tivesse feito algo errado nas outras músicas e que não tinha mais certeza de nada. Estava meio zumbi, com o ouvido cansado. Não esperava por isso.
Achei que ainda faria mais 2 mas graças a Deus não fiz, porque ao final da última estava aos frangalhos.
Ainda fiz o que faltou de O Grande Crime, a favorita do Renato Godoy. Confusão e indecisão de caixas, e de arranjo. Não conseguia ter certeza do que deveria ser feito, e ainda agora não tenho. Mas conseguimos terminar a música.
Vou deixar passar uns dias pra ouvir com calma. Fizemos 2 versões, com sons diferentes, e veremos depois se eu toquei o arranjo certo.
Eu já estava zumbi. Jorge Guerreiro já estava zumbi. Renato Godoy é um zumbi. Paramos.
5 num dia (se estiver tudo certo)! Ok. É uma média boa dentro do esperado por mim. Considerando que paramos antes de toda música pra timbrar tudo, um luxo total e pouco usual, foi até rápido.
Vale frisar que tudo foi filmado. Não sei se alguma hora vai rolar um novo making of, mas o importante é ter essa possibilidade disponível (Grande presença do nosso guru espiritual Alexandre Pires…só conferir nas fotos).
Dieguito e eu empacotamos tudo, enquanto Jorge e Renato fazem o recall. (anotar tudo de regulagem e posicionamento, pra na próxima vez já partir dali).
Nos esprememos no carro (eu, Diego e Jorge) junto a toneladas (que exagero) de equipamento e partimos. Deixo eles em suas respectivas casas, e chego em casa.
3 da manhã. Minhas mãos doem.
PL
P.S. 1 – clique nas fotos pra ampliar
P.S. 2 – as gravações não tem nenhuma sequencia pra acontecer. Quando tiver que ser será.
Ansiosa demais!
P.S. 1 Making of sim!
P.S. 2 Alexandre Pires hahaha
Porra Patrick… que bom saber que voce ta gravando coisas suas. É diferente ne? Maior atencao e cuidado em todas as etapas. Sucesso e vou ficar acompanhamndo tudo por aqui. Adoro saber de dia-a-dia de estudios.
Ass> Daniel Trevis
Bom trabalho!!!
contamos as horas prá conferir
o novo do Eskimó…
ufa! parece ser bastante trabalho heim?!
beijos!!!
Muito bom!!!
Pensei que a gravação num esquema profissional fosse algo mais relax, mas o perrengue é bem maior do que a precariedade que eu tô acostumado,rsrs!!! Se o ouvido já cansou no primeiro dia, imagina quando tudo for pra mixagem…rsrs!!!
Sorte!!!
Making of sim²
"Tô fazendo amor com 8 pessoas…"
"Meus micro segundos de pedal duplo não agradaram. Foda-se. Deixei assim mesmo. Sou metaleiro e nerd, e viva a fritação"
mal posso esperar.