Tira me a las arañas

Fernando Aranha.

Guitarrista. Pacato.

Conheço o Aranha faz anos. Desde que meu amigo Bernardo Fonseca começou a gravar um disco solo que nunca saiu.

Era o sujeito mais calmo e meigo da Terra, e nada poderia ter me deixado mais feliz que ver seu ingresso no Engenheiros. Aranha tocou comigo no Tom Bloch e pude conferir de perto que ele é do tipo de guitarrista que eu aprecio. Os guitarristas “não guitarristas”. Minimalista, com gosto para texturas, não esporrento, elegante e fã de Frusciante.

Ele teve o desprazer de ser incubido da música mais difícil do disco. Não por ser virtuosa nem nada, mas é uma música de 8 minutos completamente maluca, cheia de partes, e com uma harmonia um pouco tensa e complicada. Se chama À Deriva. É uma música bem antiga, que chegamos a gravar pro EP com uma outra cara, mas que acabou não entrando, e morfou pro que estará no disco. É um acesso de raiva que tive de um dos meus melhores amigos, que certamente não vai saber que a letra é pra ele.

Na primeira reunião com o Aranha, levei a faixa e umas referências. A princípio ele não entendeu nada (nada mais razoável) e gostou das referências. Ele também trabalha com trilhas e é um entusiasta de cinema, então era quase óbvio que ele abraçaria a idéia de Tom Waits e afins. Expliquei mais ou menos o que queria em cada parte, e deixei pra ele fazer sozinho, no seu tempo, e depois me mandar o rascunho por email.

Uns meses depois recebo o primeiro take. MUITO ESTRANHO. Hoje sei que isso é muito bom, mas estranhei muito. Não era o que eu esperava, e levava a música pra outro lado. Relutei um pouco com isso, mas as idéias eram realmente bonitas. Luta de ego. : (

Acabou que até mudei uma parte da melodia de voz pra que a guitarra pudesse permanecer intácta.

Fiz as correções de harmonia e pedi pra ele fazer os ajustes.

Meses e mais meses depois chegou o dia de gravar.

Chegou todo simpático e disposto como sempre. Trouxe sua Telecaster, um Fender HotRod e sua pedaleira com 500 delays.

Tirou um som limpo muito bonito mesmo, e matou rapidamente quase toda a música, fazendo uns ajustes de ultima hora a uma harmonia que havia sido modificada a pouco tempo. O som cristalino, cheio de delays, harmonicos e echos tomava a sala. Captamos de perto e do mezanino, que conseguiu pegar a amplitude daquele som. Royer 121 pra perto, C12 pro ambiente.

Gravou alguma coisas com minha Strato Paisley, e uns gritos de guitarra super abafados com BigMuff. Meio Queens, ou sei lá.

Acho que foi isso. Falta pouco de guitarra pra matar essa música…

PL

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